"Ai, Sr. Alberto, aqui a sua vizinha tem uma coroa que faz lembrar os mortos!", diz a senhora que vai levar o almoço todos os dias, e di-lo sem cerimónia alguma, já que se ouve cá dentro de casa. "Deixe lá, ela gosta..." - pois, é melhor o vizinho dar-me o benefício da dúvida, pois eu posso estar do lado de dentro da porta, a escutar :) Mas não é preciso estar a escutar, a senhora faz mesmo questão que eu ouça. "Ai, podias ter misturado mais cores aqui..." Ou "Até está bonita, mas a cor..." e por aí fora! Não pode uma mulher fazer mais uma coroa para enfeitar a entrada, que é logo associada aos mortos! Quase todos os dias me é lembrado isso. E eu com vontade de dizer que tenham mas é medo dos vivos, que esses é que podem fazer mal. Definitivamente, não sou dada a superstições. Acho que o 13 é apenas o número que fica entre o 12 e o 14 e portanto, ele teria sempre de existir. Acho que os corvos e as serpentes são criaturas da natureza como qualquer outra, com a sua função própria, com toda a certeza. Acho que o roxo é uma cor linda, nos seus mais variados tons, que vão do lilás ao não sei quantos, que eu não sou muito dada a conhecer e a nomear todas as variantes de todas as cores existentes. Demoraria uma eternidade a fixá-las todas, pois todos os anos são inventados novos nomes para atribuir a este e àquele tom. O preto, a mesma coisa. Ausência de cor ou não, o preto é tão necessário como o branco e é tão cor como este. Bom, considerações à parte, a verdade é que me tenho divertido com todas as opiniões sobre a minha coroa. Nenhuma delas é positiva, mas que não deixa ninguém indiferente, lá isso é uma verdade! A minha querida coroa da discórdia, sendo eu a sua única defensora... E estejam à vontade, podem adicionar o vosso desagrado aqui também. Eu não me importo! E provavelmente vou continuar a divertir-me, perdoem-me...
Neste mês do amor, os dias têm corrido sem pressas. Problemas não graves de saúde têm tornado o nosso ritmo mais lento, em casa e na horta. Mas, a avaliar pelo ditado e pelo tempo que se tem feito sentir, este ano iremos ter a despensa cheia! Pois chuva é o que não tem faltado. Entremeado com dias de sol, que nos carregam as baterias para continuar na luta com entusiasmo, este tem sido um bom Inverno para nós. Mas já que este é o mês que antecede a Primavera, preparamo-nos para a sua chegada, fazendo limpezas, algumas mudanças, muita comida reconfortante, sem nunca deixar de sonhar acordados, mas conscientes da necessidade de sermos gratos por aquilo que temos e somos. Entre chuva e sol, os dias vão passando por nós, nós por eles, e a vida vai-se fazendo, um dia após o outro, em serenidade...
Faz hoje uma semana e a ordem era passar um tempo relaxado, longe do nosso sítio. Enchemos o carro, duas irmãs, duas sobrinhas e um filho e lá fomos nós, absorver o ar marítimo, ficar com o cabelo encrespado do sal, comer peixe e marisco fresquinho, passear pela areia, tirar fotos e mais fotos a tudo e mais alguma coisa, conversar, e nem o tempo cinzento nos abalou a motivação. A força das ondas contagiou-nos, o conforto dos casacos e mantas de lã à venda, o traje típico das nazarenas meteu-nos inveja e o clima carnavalesco que já se fazia sentir enchia as ruas de alegria e cor. Foi um dia bom, um dia de despejar a cabeça e enchê-la de coisas boas para animar a semana. E hoje, passada já essa semana, ainda tenho dentro de mim o som das gaivotas, o ritmo da música, o barulho das ondas, a força do mar, o cheiro do sal e do peixe seco, a pele escorregadia da maresia e a preguiça na viagem de volta a casa...